segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Canto de amor e ausência

Pedi tanto a Deus, para me dar um dia...
Forças para voltar, matar o que sinto,
Rever à velha casa de tantas alegrias...
E a minha gente, que ficou lá no quinto;

Deixei pelas estradas, de uma saudade,
Buscando as tuas noites e mesmo assim...
Não sei se amo tanto ou se amo pouco,
Só sei que tu és a vida que pulsa em mim!


São Chico, me espera, estou voltando!
Pelos caminhos que a vida não me deu,
E ao som de cada voz que faz meu canto...
Eu possa encontrar alento junto aos meus;

E um dia quando a tarde chegar ao fim...
Parte de mim será tempo e recolhida,
A outra parte o sonho que me acalanta,
De estar junto contigo, o resto da vida!



Ainda trago por inteiro, nas minhas retinas...
Lembranças bem guardadas, do teu chão,
O cheiro da terra molhada, nas tardezinhas,
Lustrada pelo sereno de outro verão;

Peço a Deus, se acaso, ainda der tempo,
Para encontrar novamente, o que preciso,
Que eu possa estar contigo, no fim da vida,
E reencontre neste chão, o meu paraíso!

No ceú azul dos teus olhos

Busquei o céu dos teus olhos,
Para meus sonhos viageiros,
E na calma do teu sorriso...
Soltei os planos estradeiros;

Me perdi por esse tempo...
Em outro corpo fiz estrada,
Mas é calor dos teus braços,
Que busco nas madrugadas;


Teus olhos de azul celeste,
Gotas vidradas e vertente...
Guardas segredos e amores,
Filtrado em águas corrente;

E num instante se abranda...
Brilho de estrelas candentes,
Fechado em véus de negrume,
No amor guardado pra gente;



Não sei porque os teus olhos....
Guardam a dor e a tristeza,
Se há uma lua cristalina,
Clareando na tua beleza;

E o tempo muda o seu curso,
O rio que verte, se acalma...
E a boca adoça um sorriso,
Para o aconchego da alma;

Sobre Viventes!

No pé da marquise de imponência dourada,
No frio das calçadas, nas noites pequenas...
Repousam os corpos, com olhos de bicho,
São anjos do lixo, que o mundo condena;

No futuro incerto, de vidas inocentes...
São os sobreviventes, da guerra, da fome,
Papel, papelão, são casas, trincheiras...
Eternas bandeiras dos discursos infames;


Ah! Sobreviventes...
Há tanta gente...há;
Discursos inconseqüentes, dá...
Sobre os viventes;



Meninos, meninas. Os filhos das ruas...
Que só têm as luas, e os sonhos do nada,
São seres indefesos que a vida, oprime...
Co'a escola do crime de porta escancarada;
Até quando, senhores, ficarão esperando?...
O futuro passando, o tempo tem pressa!...
No pé da marquise de imponência dourada,
Crianças abandonadas só ouvindo promessas.

Sonho de Andejo

De poncho emalado, pego a estrada campeando meu rumo,
E os sonhos andejos seguindo o rastro de um baio ruano...
Talvez eu me encontre nalgum ranchito quinchado de lua,
Ou talvez me perca pelo descampado dos meus desenganos;

As rosetas me trazem a dor da cantiga que vem das auroras,
E a barbela recita os versos mais puros que a alma pediu...
É longo o caminho daquele que parte pra um mundo distante,
Levando nos olhos a água corrente, com jeito de rio;


É triste a partida pr’àquele que segue caminhos incertos...
Mesmo sabendo que a estrada nos leva para algum lugar,
A vida é que cobra o preço mais alto sem ao menos pedir...
Pior que partir, é saber que não tem, para quem voltar;


A sombra reclama levada a cabresto, não querendo seguir,
Talvez já sentindo a mesma saudade que parte comigo...
Nem mesmo o campo bordado de flor dessas primaveras,
São acalantos para a alma inquieta que busca um abrigo;

Talvez eu encontre pelas veredas de algum sonho andejo...
Os mesmos desejos que a alma rebusca por essas estradas,
E num canto qualquer reerga um rancho de capim, barreado,
Para ter a meu lado os olhos sorridos da mulher amada;

LETRA SEPARADA PARA HERMES DURAN

Tango do debochado

Quando me bate esta ânsia de chinero,
Eu meto um "chero" num paiñuelo colorado,
Na xucra estampa feito pose pra retrato...
E vou dá um trato nas mimosa do sobrado;

Até o meu zaino sabe bem qual é o rumo,
Quando me aprumo a noite "véia" se apequena,
Tilindo esporas, tirador, chapéu e mango...
Vou cortá um tanto co'as "guria" da Iracema;


Quem me conhece sabe do meu defeito...
Quando me ajeito não respeito nem "jagunço",
Me basta um tango e a china do meu agrado,
"Tando" enxaguado já "to" pronto pro fudunço;


De vez em quando o corpo "véio" se aniquila,
Atiro uns "pila" já de troco pra o garçom...
Com uma tipinha retoçando quase nua,
Me salta duas espumentas, com batom;

Então me frasco no perfume da dengosa,
Dando um prosa no clarão da luz "vermeia"...
Acomodada junto ao peito deste ingrato,
Pedindo um trato, babada até nas "oreia";

Te Ajeita, Tipa Véia!...

Tipa veia, gadeiuda,
É das loca que se gruda,
Acabando co´os meus troco,
Quando chama de “meu nego”,
E se boleia nos pelego...
Não há quem tire do choco;

China maula e bagaceira,
Das beiçuda, da fronteira,
A tua vida é um desengano,
Por um trago de cachaça,
Se bota, até de graça...
Na garupa de um paisano;


Oh! Sogra véia...
Tu já foi minha tetéia,
Mas hoje é minha revolta,
Te quero que nem cerveja,
Gelada, sobre uma mesa,
E o tipedo todo em volta;



Tipa véia, remelenta...
 Batizada em água benta,
 Dessas sobra de despacho, 
 Se é a canha que te estraga,
 O meu mango já apaga...
 Este teu fogo de macho;

Se o finado um dia sonha,
Que tua fama anda medonha,
Co´a indiada do rincão...
Quem sabe, de desgosto,
Te arrume algum encosto,
Ou até levante do caixão;

LETRA SEPARADA PARA CLEBER BRITO

Tributo aos Homens do Basto


Que homens são esses que calçam esporas,
E cutucam a aurora bem antes dos galos...
Repassando a lida no trono da encilha...
Mapeando coxilhas a cascos de cavalo;

Campeiros de hoje alheios o modernismo,
De xucro atavismo e alma de guapo...
Senhores do campo forjados na pampa,
A mais pura estampa, de sangue farrapo;

Que homens são estes?
Que homens são estes?
Senhores dos campos...
Senhores dos bastos...
Que homens são estes,
De laço nos tentos...
Com imagens de Bento,
Gaúchos... Farrapos!

Que homens são esses que fazem história,
Guardando a memória de seus ancestrais,
Firmes nas rédeas e nas crinas do tempo...
O mesmo sentimento e com os seus ideais;

São tauras campeiros timbrados à fumaça...
Com a fibra e a raça de que não se entrega,
Que trazem por rancho um céu estrelado...
 De chapéu tapeado, que a Pátria não nega!

LETRA SEPARADA PARA HERMES DURAM!

Tropeiro de Alma e Tempo


                                                                  Canção tropeira

Desde o tempo de Mendonza, que esta terra,
Abriu fronteiras pra uma história, uma saga...
Quando os Birivas arreando as suas mulas...
Levavam tropas do Rio Grande a Sorocaba;
Abriram caminhos pelos matos e serranias...
A tropa solta ia demarcando sua trajetória...
Coxilha Rica, Monte Alegre e Rio do Rastro,
Tem boi na enchente do Passo Santa Vitória;

A noite é longa pra uma ronda e pastoreio,
E tem Leão Baio saindo para a caçada...
Pois um Biriva que se garante nos arreios,
Chega ao destino sem deixar boi na estrada;

O fogo grande aquece a alma em tempo feio,
E uma viola vai ponteando minha saudade...
Panela grande, onde o frescal faz entrevero...
Pinhão cozido, vinho tinto, bóia à vontade;
Na madrugada quando o dia mostra a cara,
Tropa estendida na cantiga de um cincerro...
A comitiva encilha sonhos seguindo rastro,
Que o progresso vem pedindo pro tropeiro;

Chapéu de palha de aba larga e copa alta...
Botas campeiras que o serrano usa assim,
Vejo o retrato de Cândido da Silva Neto,
Velho biriva, faz história em São Joaquim;

Um dia desses!...


Um dia desses, nós proseavamos, no galpão,
Encilhando o mate antes do cantar dos galos,
Acordando os dias a guela de espora e grito...
Sovando os bastos pelo lombo dos cavalos;

Um dia desses, na culatra de uma tropa...
Falavamos da vida, das angústias e dos anceios,
Buscando sonhos no final duma tarde quieta,
Fazendo versos com a cantiga dos arreios;

Porque alguém tem que partir, tão cedo...
Sem um abraço, sem um adeus de despedida,
Porque a morte nos deixa assim sem norte,
Será mais forte, que apaga toda uma vida?

Qual o segredo que existe entre os mortais,
Esta magia de não saber o dia do fim...
Por isso imagens emolduradas nas retinas,
É a saudade que não morre dentro de mim!

Um dia desses, o campo se fez silêncio...
E a tarde quieta emudeceu com a sua paz,
Ergueu-se um luto de nuvens e sombras grandes,
E um corpo inerte quedou-se pra nunca mais;

Um dia desses, a coxilha se fez morada...
Na cruz plantada junto a sombra do tarumã,
Deixando um rio margeando tantas retinas,
Entre perguntas sem respostas do amanhã;

Um Poeta sem Nome

Era um tempo em que a poesia...
Tinha mais do que magia na linguagem de um poeta,
Tão doce figura humana,
Que nasceu em Manoel Viana, a sua terra predileta...
Quem nunca frequentou escola...
Mas a vida por esmola lhe dera mais do que ensino,
Criado quase sem teto...
Um inocente analfabeto, com olhar triste de menino;

Mas o tempo foi passando...
E um homem se formando nas faculdades da vida,
Deitou os olhos na poesia...
E a alma por rebeldia entregou-lhe para a bebida,
Virou um ébrio terrunho...
Ditando a outros punhos foi dando versos de graça,
E o poeta qu’eu mais queria...
Pelas ruas se perdia entre os copos de cachaça;

      Chiquinho hoje eu me arrisco...
      De querer ser um Francisco para ser igual a ti,
      De fazer o que tu fazias...
      De brincar com a poesia coisas que nunca aprendi;
      Me tira deste dilema...
      Ensina-me a fazer poemas juntando sonhos dispersos,
     Embrulhar em um presente...
      Entregar pra minha gente, a beleza dos teus versos.


Este dom que Deus te deste...
Na simplicidade de mestre, hoje, ébrio da solidão,
Nunca perderá o teu valor...
Pois quem lida com amor, colhe rimas, do coração,
Quem sabe, um dia, entenda...
E teu povo até compreenda, os simples gestos, teus...
Pois o poeta é um ser vivido...
Que veio ao mundo escolhido para ser a voz de Deus;

Um Tal de Pedro Louco


Melena branca, mal tosada sobre o ombro,
A barba grande estampando a longa idade...
Corpo cansado dobrou o dorso e espinhaço,
Hoje, em pedaço, um favelado da cidade;
Quem conheceu velho Pedro ponteando tropa,
Levando gado do Rio Grande à Sorocaba...
Não teve tempo pros amores e pra saudades,
Um desses birivas que a história não acaba;

Um era boi...um toca boi... vamos boiada...
Passa seus dias gritando, de uma janela,
Enquanto lá fora todos rindo do Pedro louco,
Da sua demência, num barraco de favela;

Chapéu de palha já expuído na copa e aba...
E o mesmo entono de um biriva haragano,
Bombacha gasta, arremangado e pé descalço,
Mais um pedinte dos favores, trapo humano;
A cuia sem erva e água fria duma cambona,
Pequeno traste que sobrou daqueles tempos,
Fica mateando com os velhos companheiros,
Esses fantasmas que habitam os pensamentos;

Quando lembra, das noites e do relento...
A tropa mansa, estendendo-se pelo estradão,
Deixa escorrer na frágeia rugas do seu rosto...
A água e sal que já amargou seu coração;
Quantos homens, quais a ti, esquecidos?
Hoje vivendo na penúria e dos favores...
Desses tantos que acabram co’as tropeadas,
Na ganância tão cruel de outros senhores;

Letra SEPARADA PARA ZÉZINHO

Vaneira “veiaca”


Salto no lombo do pingo,
E pego o rumo do bolicho,
Saio em busca de cambicho,
Pra minh’alma “candonguera”...
De longe “escuito” um chiado,
Que nem enxame de “abeia”
E uma gaitinha corcoveia...
Me convidando pra vaneira;

Bota, bota, seu gaiteiro...
Mete as garras nessa “loca”,
Que uma tipa pede boca...
Se embalando no compasso,
Faz um “chacuáio” campeiro...
Num trancão “véio” Monarca,
Que me aprumo nesta marca,
Acomodado nesses braços,

Mete um tranco macanudo,
De uma vaneira “veiaca”...
Qu’este taura já se atraca,
Num jeitão lá da fronteira,
Chapéu tapeado na testa...
Um par de bota de garrão,
Com marcas de redomão,
Na velha estampa campeira;

Bem assim “varamo” a noite,
“Retossando” pros dois “lado”,
E o corpo “véio” esgualepado,
Dando achego pra percanta...
Escorrendo suor da melena...
Entre a fumaça do candieiro,
Dou um grito pr’ao pulpeiro,
Me “gusta” um samba com fanta;

Vida Maleva

                                                       Valsa

À tarde se vai no quietume das horas,
E a vida lá fora se vem pra o galpão...
À noite me pega estendendo os pelegos,
Buscando aconchego pra tal solidão;

Atirado ao relento de um catre vazio,
Até o sono partiu sem me dar abrigo...
Deixou-me a ilusão de duras verdades,
E a velha saudade, pra deitar-se comigo;

         Quem é que diria que um taura ginete...
         Que dobrou a porrete algum potro ventena,
         Pudesse estar hoje, nesta dura ansiedade,
         Chorando a saudade daquela morena;


A vida é maleva e cobra o vivente,
Que vê de repente um sonho acabar,
Vê o rancho vazio, silêncio de tapera...
A dor duma espera por quem não virá,

Jamais imaginei o golpe de um pealo,
Cair dum cavalo qu’eu mesmo encilhei,
Sentir o sofrenaço, um arreio virado...
Ter o amor renegado da linda que amei.

         Quem é que diria que um taura ginete... 
         Que dobrou a porrete algum potro ventena,
         Pudesse estar hoje, nesta dura ansiedade,
         Chorando a saudade daquela morena;


A lua se achega num bordado de luz...
Parece que seduz a própria imaginação,
Vejo tua imagem nas flores mais belas,
Debruçada à janela dum rancho coração;

Viro e me viro buscando o meu sono...
A dor do abandono cortando de espora,
Vem à madrugada, as gotas do sereno,
Dois olhos morenos pra alma que chora;

Virando os “arreio”

Convidei o silêncio pr’um dedo de prosa e uns “gole de mate”,
E cutuquei a saudade, acaranchada em meu peito nesta solidão,
Rebusquei no violão a pauta de um verso de notas mais longas,
E encilhei a milonga com as cordas trançadas do meu coração;

Soltei campo afora de lombo curvado, sem freio ou bocal...
Uma saudade bagual que vivia trancada, refugando os anseios,
Atorei pelo meio uma tropilha de notas, das “loca” de infame,
Nas cordas de arame que faz a milonga sair virando os “arreio”;

Ah! Milonga... Milonga bruxa...
Ah! Milonga... Milonga “véia” gaúcha!
Ah! Milonga... Só porque ela não veio...
Ah! Milonga... Não me vira os “arreio”!


Larguei as lembranças no poncho da noite e um terço de estrelas,
Quando a lua sinuela guardando em silêncio, os nosso segredos...
Minh’alma sem medo, se adona do rancho, que é meu universo,
E faz cama dum verso trazendo a alma para a pontas dos dedos;

Sonhei com o momento moldado no quadro de um belo retrato...
Quando a vida de fato, enfeitar este rancho e os poemas que faço,
Quero ter nos braços, a milonga mais linda que o silêncio requer,
Num corpo de mulher, a acaricia dos beijos e o calor de um abraço;

LETRA SEPARADA PARA HERMES DURAN

A dor campo

Nuvens desenhando imagens,
Co’a ressolana mais quente...
Branqueando tudo na frente,
Na mais triste das paisagens...
O campo morre na estiagem,
E os sonhos morrem na gente;

Sombras de formas copadas.
Sob os braços dos tarumãs...
Calando a voz do tajãs...
Plena secura da aguada,
Deixa um vazio na estrada,
Sem esperança de amanhã;

Tristeza, dor e relento...
Nestas securas de campo,
Foi-se a chuva com vento,
Ficaram olhos em pranto;
E a dor em forma de verso,
Para dar vida à meu canto;


Formam-se rabos de galos,
E vozes clamam em prece,
O campo santo, emudece,
Nas poças secas e valos,
Buscam água, os cavalos,
Cena que ninguém esquece;

A dor do campo é tristeza,
Para quem tira o sustento...
São pelos terços de tentos,
E as velas brancas, acesas...
Enfeitando altares e mesas,
Que a esperança tem alento;

LETRA SEPARADA PARA CLEBER BRITO

Alma de Gaiteiro


"Tamo" chegando com esta alma de gaiteiro...
Num toque véio grongueiro de “atorá” a sala ao meio,
Tirando notas misturadas com suor e poeira,
Num balanço de vaneira de "juntá" os “tareco” alheio;

E lá na copa o bolicheiro abrindo o bico...
Quem é taura de São Chico não afroxa nem por nada,
“Varemo” à noite cortado de alça de gaita...
Mostrando alma de taita até o romper da madrugada;

E não dá nada, meu cumpadre, não dá nada...
“Bamo” abrindo a madrugada num trancão bem fandangueiro,
Metendo notas “acuierada” uma co’as outra...
Que a vida véia é potra pra esta alma de gaiteiro;

“Bamo” de novo num balanço “achaquaiado”...
Que o farrancho tá formado e dá inveja “inté” de “oiá”,
De vez em quando se alvorotam os mais afoito...
E já se atiça as de dezoito bombeando a indiada “tocá”;

O baile é grande e pra quem gosta de um afago...
Tem china, cordeona e trago pr'uma estampa de campeiro,
"Atoremo" a noite atracando pra os dois lados...
Num balanço bem fincado, co’esta alma de gaiteiro; 

terça-feira, 24 de abril de 2012

Sob o véu das cortinas

De longe quando te vejo,
Ali sob o véu das cortinas...
Dando-me luz às retinas,
Calando um sonho andejo,
Talvez seja o teu desejo,
Que um dia fez-te mulher,
Linda flor azul do aguapé,
Queria roubar-te um beijo;

Sei que tens sonhos tantos,
E os meus cabem na mão,
O meu mundo é o galpão,
E a Pátria verde do campo,
Talvez para o teu espanto,
O meu coração te espera,
Mesmo que toda primavera,
Inveje os teus encantos;

         Linda! A flor mais bela!
        Que enfeita os olhos meus,
        Mais pura arte de Deus...
        No quadro de uma janela,
        Quem sabe ainda me espera,
        Entre os sonhos que trago,
        Para cevar um mate amargo...
        E adoçar co’os lábios dela;


Todo o dia a mesma cena...
Enfeitando meus momentos,
E um perfume vem no vento,
Cheirando à rosa e açucena...
Quando sorrindo me acena,
Sob o manto das cortinas...
Que até a noite se ilumina,
Só para ver-te, morena;

Talvez, um dia, a coragem,
Que me fez um domador...
Traga-lhe um buquê de flor,
De alguma outra paisagem,
E entre o frio das aragens...
Num véu da lua mais bela,
Possa estar na tua janela...
Com cenas d’outra imagem;

LETRA SEPARADA PARA ERI CÔRTES

Canto de amor e ausência

Pedi tanto a Deus, para me dar um dia...
Forças para voltar, matar o que sinto,
Rever à velha casa de tantas alegrias...
E a minha gente, que ficou lá no quinto;

Deixei pelas estradas, de uma saudade,
Buscando as tuas noites e mesmo assim...
Não sei se amo tanto ou se amo pouco,
Só sei que tu és a vida que pulsa em mim!

      São Chico, me espera, estou voltando!
      Pelos caminhos que a vida não me deu,
      E ao som de cada voz que faz meu canto...
      Eu possa encontrar alento junto aos meus;

      E um dia quando a tarde chegar ao fim...
      Parte de mim será tempo e recolhida,
      A outra parte o sonho que me acalanta,
     De estar junto contigo, o resto da vida!


Ainda trago por inteiro, nas minhas retinas...
Lembranças bem guardadas, do teu chão,
O cheiro da terra molhada, nas tardezinhas,
Lustrada pelo sereno de outro verão;

Peço a Deus, se acaso, ainda der tempo,
Para encontrar novamente, o que preciso,
Que eu possa estar contigo, no fim da vida,
E reencontre neste chão, o meu paraíso!

Simplesmente Rosa

Deixei amores perdidos...
E outros que me perderam,
Deixei algum sonho esquecido,
Em palavras que emudeceram;

Busquei no azul d’outros olhos,
A estrela que havia em ti...
E quando achei que encontrara,
Foi na hora em que me perdi;

       Secaram: o caule e as folhas,
       E a Rosa que ainda havia...
      Ando ressabiado de amores,
      Que envelheceram meus dias!

      Mas, ainda, trago teu cheiro,
      Por entre folhas ressequidas,
     Pois só um amor verdadeiro,
     Pode durar, muitas vidas!


Busquei na forma mais terna,
Alguma palavra esquecida,
Se o coração não se governa,
Sofre os ressábios da vida;

E a dor que aperta o peito...
Deixando a alma dengosa,
Descobre que não há outro jeito,
Te amo eternamente, Rosa!

LETRA SEPARADA PARA AKYKE MELLO

Romance de Sol e Lua

Um tem o fogo ardente,
Queimando a luz da paixão,
Tem a vida no coração...
E entrega, ela pra gente,
Dando calor à semente...
Adoça o fruto da terra,
O ciclo do dia encerra,
Num belo quadro do poente;

A outra, ainda mais bela,
Vestindo a noite de luz...
Que ao andarilho, conduz,
Nas horas de sentinela,
Pinta ranchos de aquarela,
Vidreia o manto das águas,
Quando meu peito tem mágoa,
Vem debruçar-se na janela;

         Só o amor pinta nuance,
         Para que a vida se conclua,
         Quem disse que não há romance,
         Uma paixão de Sol e Lua;


Quando um está de chegada,
A outra está de partida,
Mas não cobra despedida...
Apenas quer ser amada!
Da sua maneira, aluada...
Por momentos se escondeu,
Deixando a noite no breu,
E um vazio na madrugada;

O outro ficou escondido,
Entre o manto da cerração,
Quem sabe seja a ocasião,
Do momento pretendido,
Que esteja sendo dividido,
Um juramento, no altar,
E este véu, solto no ar...
Seja a cauda de um vestido;

LETRA GRAVADA POR CLEBER BRITO.